A desertificação crescente de Gilbués e a exploração mineral
Gilbués, uma cidade brasileira, no Piauí, sofrendo com o processo de degradação do solo com efeitos sociais graves enquanto a extração de minerais preciosos segue agravando a situação.
Eu sempre tive o sonho de viajar de carro percorrendo estradas, sem pressa, visitando novos lugares e explorando o Brasil profundo. No final de 2025 pusemos a idéia em prática. Eu e minha esposa percorremos cerca de 4000 km. Saímos de Brasília, atravessamos o Tocantins, subimos de barca até o Maranhão e prosseguimos para passar o natal de 2025 em Teresina (PI), com a família dela. No retorno, nosso caminho passava por essa cidadezinha no Sul do Piauí, Gilbués.
Gilbués é uma região que sempre sofreu com certo empobrecimento natural do solo. Nos EUA existe um temo para definir esse tipo de terreno: Badlands. 
Badlands, em tradução literal “terras ruins”, caracterizado por um tipo de solo rico em argila que sofre erosão severa pelo vento e água. Geralmente apresentam cânions, picos e ravinas com vegetação superficial de difícil enraizamento. 
Apesar disso, há o fator humano que intensifica o empobrecimento desse solo, que é a exploração de minerais valiosos e o agronegócio.
As pessoas chama a região de “Terras Vermelhas”. Apesar das dificuldades de plantio, existem pequenos agricultores na região que lutam contra as adversidades e pobreza do solo, fazem seus plantios e criam formas de contornar isso com estratégias de plantação e tecnologias da agronomia Por exemplo, plantar gramíneas e mato, são formas de segurar o solo com as raízes das plantas. Há também a criação de covas para que a água da chuva fique contida ali, servindo de alimento aos animais e também retendo a umidade para que ela não se dissipe.
O período em que estivemos na região foi bem incomum, estava estranhamente frio e chuvoso. O semi árido do Piauí tem pouquíssima chuva e o calor quase insuportável. Talvez por isso, essa região pobre de água ainda contivesse alguns reservatórios artificiais cheios. Mas pela foto do drone, é possível perceber que o rio estava minguando. 
Houve plantações recentes como estratégia de conter a água nos solos, então o verde nesse período chuvoso estava bem presente, o que traz uma certa esperança de que algo está sendo feito.
A população local se queixa de que grandes empresas fazem a exploração do solo para extração de diamantes e também com criação de gado na região, sem trazer nenhum tipo de benefício ou contrapartida para a cidade, nem nenhum programa de mitigação dos impactos ambientais. A empresa que opera com extração de diamantes é propriedade de um Israelense. Visa ampliar em até dez vezes a exploração mineral em 2026, com maquinário capaz de fazer a extração do solo mais capaz e veloz. O objetivo é chegar a uma extração de 50 mil quilates extraídos por mês. Se extraem diamantes por lá desde 1960, e segundo prospecções geológicas, aquele solo ainda pode oferecer possibilidade de exploração mineral pelos próximos 80 anos. A empresa possui todas as licenças ambientais e gera cerca de vinte empregos na operação do maquinário.
O empresário Israelense é dono de seis empreendimentos de mineração e uma empresa em Belo Horizonte e o opera entre Brasil e Telaviv.
Essa operação, de fato, produz números positivos para o Piauí e projeta o estado entre os maiores produtores de diamante do país. É preciso no entanto reconhecer um ponto central: Trata-se de uma riqueza privada, não de recursos públicos. Esses números, por si só, não se convertem em nenhuma melhoria coletiva. Sem mecanismos de claro retorno ambiental e social, permanecem apenas como indicadores sociais abstratos, cujos ganhos são apropriados de forma privada ao custo dos recursos naturais que pertencem sim a região, e de uma exploração que intensifica os danos ambientais. 
Não está em debate o direito da empresa de lucrar com seus investimentos, ou explorar economicamente uma atividade legal. O ponto crítico é que quando uma empresa extrai riqueza de um território frágil, historicamente marcado por pobreza ambiental e social, e essa extração contribuiu para o empobrecimento adicional do solo, torna-se legítimo exigir que uma parcela dessa riqueza seja revertida diretamente para a região que o sustenta.
Nesse sentido, seria razoável que a atuação da empresa em Gilbués estivesse vinculada a compromissos claros e mensuráveis de retorno local, como: 
Programas permanentes de recuperação e monitoramento ambiental voltados para enriquecimento do solo, controle da erosão e recomposição da cobertura vegetal. 
Criação de um fundo local de desenvolvimento socioambiental, com recursos vinculados diretamente ao volume extraído, gerido com participação do poder público e da sociedade civil.
Apoio de cadeias produtivas alternativas, como agricultura regenerativa, extrativismo sustentável, turismo de base comunitária ou cooperativas locais, reduzindo a dependência econômica da mineração.
Criação de empreendimentos locais e apoio de cadeias produtivas alternativas que gerem empregos permanentes e que intensifiquem a fonte de renda do empreendedor e da população. 
Garantia efetiva de remanejo e recuperação do solo assegurando que a área degrada seja compensada.
É muito bonito ver que o estado se destaca na produção mineral, ao mesmo tempo em que há uma discrepância enorme entre a riqueza produzida ali e o desenvolvimento da cidade, percebe-se uma precariedade e uma estrutura ainda muito básica. E claro, nenhum retorno em termos de manutenção da natureza, afim de reduzir os processos de desertificação. 
Seria interessante ver uma empresa como essa reinvestindo uma pequena parte de seus lucros em prol de tornar a região apta para que a natureza possa crescer ali novamente, e com isso fazer Gilbués florescer em todos os sentidos, na preservação ambiental, mas também economicamente.

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