2018–2026
Texto e fotos: Gustavo Serrate. Fonte histórica: Museu Vivo da Barra do Jucu.
[Registro documentado ao longo de três edições — 2018, 2022 e 2026. Texto consolidado a partir da versão mais completa.]
A beleza da festa de carnaval está na singularidade de cada região. Talvez por isso, para mim, quanto mais distante do grande carnaval transmitido pela imprensa, melhor. As pequenas manifestações da cultura popular são ricas, com uma profundidade arraigada na história local.
A Barra do Jucu é uma vila de pescadores de aspecto idílico, situada no município de Vila Velha. O acesso é por uma entrada discreta na Rodovia do Sol, a estrada que atravessa quase toda a parte litorânea do Espírito Santo. A maioria dos moradores se conhece e mantém a tradição do Bloco dos Mascarados de outros carnavais.
A festa de mascarados tem origem europeia. É uma tradição brincante que nunca se apaga — talvez porque o ser humano adora máscaras, como no caso dos palhaços: “a máscara do palhaço é a que mais revela”. Os mascarados de carnaval nada mais são do que bufões, que uma vez por ano saem às ruas e se entregam a uma rebeldia caótica que não faz parte da vida cotidiana — o momento em que homens de família, pais, tios, irmãos e avós brincam como se fossem crianças.
Ali, naquele lugarejo, a tradição vinda da Europa se abrasileirou. Em uma vila banhada pelo mar, com a entrada do rio Jucu, mangues e brejos, as pessoas se reuniam há muitos anos para sentar em roda e narrar contos de monstros e bichos-papões. Os monstros dos causos acabaram virando temas das fantasias — geralmente feitas com corcundas, caras cheias de brotoejas, narizes gigantes, cabeleiras horríveis e olhos esbugalhados. As fantasias são livres: há quem traga máscaras dos Bate-bola do Rio de Janeiro, mas o mais comum ali são máscaras de papel, feitas pela própria comunidade.
Na Barra do Jucu acontece assim: um dia antes do Bloco dos Mascarados, parte do grupo já se desloca para o matagal, em uma entrada secreta, e passa a madrugada lá — levam marmitas, pois serão muitas horas de concentração. Quando amanhece, mais pessoas chegam, trazem sacolas cheias de roupas, máscaras e perucas. Dentro do mato já começa o espírito de mascarado bufão: jogam terra uns nos outros, bebem cana, riem, gritam e se jogam no chão. Tudo isso é aquecimento para o carnaval. Quando o sol começa a baixar, os mascarados vão para as ruas em torno de um boi de pano, que corre junto com eles e avança em direção aos foliões.
E assim o povo da Barra do Jucu faz sua folia todo ano, neste curioso rito de máscaras, que parece inerente à natureza humana — e por isso se recusa a morrer.







