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Nome do projeto: Making of da gravação do DOC Corpo Território no Xingú

Data: Julho de 2027

Local: Xingu – Mato Grosso

Descritivo: Registros de bastidores da viagem para o Xingú com a equipe do documentário Corpo Território.

 

Diária de viagem

1 de julho de 2027

Saímos de Brasília paara Cuiabá, já no nosso vôo encontramos as produtoras do filme.

Éramos: Eu, na direção de fotrografia, Kaíque, colega do audiovisual de Brasília fazendo câmera B e logger, Renata, a diretora/produtora, e Luciana Brafman, produtora executiva e diretora. Nos encontramos já no avião.

Em Cuiabá, um carro nos levou até Canarana (MT).

2 de julho de 2027

Ainda em Canarana, passamos em uma farmácia e um mercadinho onde compramos mantimentos.

Atravessamos um longo trajeto, sete horas de carro em uma estrada de terrra. A estrada não era tão ruim. Mas o trajeto foi muito longo.

Passamos próximos de uma aldeia que eu já tinha visitado, em 2012. A aldeia Yawalapiti, na primeira vez que viajei para o Xingú. Uma experiência incrível, e pelo que me lembro, totalmente positiva.

No fim da tarde, chegamos na aldeia Waurá. Nosso destino. A luz estava linda, como a maioria das aldeias xinguanas, é um grande círculo formado por dezenas de ocas nos entornos. Havia centenas de pessoas do povoado, entre crianças e adultos passando, jogando futebol, conversando. A aldeia estava vibrante.

Aldeia tem formato circular com praça central, padrão comum a todos os povos do Alto Xingu. No centro fica a kuwakuho (casa das flautas / casa dos homens), espaço sagrado e masculino: mulheres são proibidas de olhar para os instrumentos guardados ali (matapu/zunidores), e durante certos rituais as portas das casas devem ficar fechadas para elas.Conhecemos a família que nos hospeda. Naia, a personagem do filme nos levou até lá para nos apresentar aos homens da aldeia, depois ela veio nos dizer que foi a primeira vez que ela havia pisado ali.

Bio Ará, o pai da família. nos cedeu a oca principal. É uma construção feita por ele, a longo de dois anos, feita com madeiras pesadas e palha. Armamos as redes e dormimos por aqui.

A noite foi muito fria, eu percebi que não trouxe o que precisava: saco de dormir, passei muito frio e dormi muito mal.

3 de julho de 2027

Começamos as gravações.

A aldeia Piyulaga fica às margens do rio Batovi, no Parque Indígena do Xingu, Próximo do município de Gaúcha do Norte. O Nome vem da lagoa vizinha, Piyulaga, significa “lugar de pesca” em arawak. Piyulaga sozinha tem cerca de 560 habitantes, é a maior das aldeias Wauja.

Entrevistamos Naia, a nossa personagem principal, e sua família. Ela e o irmão, jovens, passaram por uma depressão severa.

O irmão parece curado, ela ainda luta para se libertar. Eventualmente se cortam. Há vários casos de suicídios nas aldeias. Esse ano foram cinco somente na aldeia Piyulaga. Naia recebeu aos 13 anos o papel de ser uma liderança, junto com a responsabilidade, um peso e precisa abdicar de seus sonhos, suas vontades. Daí uma das razões da depressão. Ela não quer continuar na aldeia, mas precisa.

Apesar disso, é uma pessoa com muita clareza, fala muito bem, e tem um jeito doce. O irmão também é uma liderança, sofreu um acidente certa vez. Ficou sem poder andar por quase um ano, sofreu muito, foi quando a depressão se instalou.

Foi um dia cansativo, quando fomos jantar, a família se retirou da mesa, é cultural, eles só comem depois das visitas.

De noite, não fez tanto frio.

Uma criança recém nascida faleceu, não se sabe bem o porquê, mas há possibilidade de falta de cuidados médicos. Há pouquíssimos médicos disponíveis.

De noite toda a aldeia estava em um choro coletivo. O choro se ouvia de várias casas.

Quando todos deitaram eu fiquei na rede relembrando de uma experiência antiga bem ruim.

Aquele choro coletivo me despertou um gatilho da segunda vez em que estive no Xingú.

--- Aldeia Kuikuro, meados de 2017/2019 - ano de Kuarup

Trabalhava no Ministério da Cultura, durante o ministério de Juca Ferreira. Eu era videomaker, Janine Moraes era fotógrafa. Um indigenista, Juliano, conduziu a expedição, e fomos com Fred, um membro do ministério da época.

O ministério tinha funcionários antigos que já faziam interlocução com os indígenas de longa data. Um deles era filho do cineasta Glauber Rocha. Mas a equipe simplesmente ignorou e passou por cima da diplomacia anterior e foram para o Xingú sem levar essas pessoas.

Eu e Janine éramos os responsáveis pelos registros, ela na foto, eu no video. Eu era muito inexperiente nesses assuntos. Lembro que logo que chegamos na aldeia, completamente ingênuo, me enfiei no meio dos indígenas que tinham capturado um filhote de  onça. Fiz uma foto.

Lembro da Janine me chamar atenção, porque eu não respeitei nenhum procedimento. Nenhuma introdução. Na época achei bobagem, mas depois fui percebendo que uma abordagem mais lenta e respeitosa era uma escolha ética. Na época isso nem se passava pela minha cabeça. Eu só queria captar uma imagem bonita.

Depois ela me perguntou se pelo menos eu garanti a imagem, eu tinha garantido.

Eu aprendi muito com a Janine, eu tinha alguma formação técnica, mas ela falava de outros aspectos do trabalho que eram novos para mim. Eu admirava as fotos e a forma de trabalho dela, focada, em busca de uma estética conciente e consistente. Não era sobre fazer imagens, apenas. Fotografar começava muito antes  de qualquer aspecto técnico.

Enfim, dito isso, passamos alguns dias ali. Dormimos dentro da Oca. O mesmo Juliano, por coincidência, trabalhava com os Yawalapiti, que eu já havia visitado anos antes. Agora estava ali junto ao MinC.

Passamos alguns dias ali, registrando livremente. Não havia ninguém coordenando o trabalho. Nosso objetivo era produzir imagens sobre o evento, eu faria um documentário e a Janine uma série. Entrevistamos algumas pessoas, etc

Alguns dias depois da nossa chegada, estava muito quente. Eu e a Janine descemos para tomar banho no rio. Ficamos um tempo por lá. Até que na volta, algo de muito estranho ocorreu.

Quando estávamos chegando de volta do rio, entrando na aldeia, havia um grande choro coletivo. Como se todas as pessoas da aldeia estivessem em prantos ao mesmo tempo. Como era o Kuarup, um evento que reunia varias aldeias, havia vários ônibus que estavam todos partindo e a festa seria cancelada por conta da morte de um importante líder indígena ancião. Ele havia acabado de passar mal e morrer. E a notícia espalhou-se por toda aldeia.

Ficamos confusos com toda comoção coletiva, até descobrirmos que Juliano fora acusado pelos Kuikuro de cometer feitiço para matar o ancião.  A acusação ficou no ar e nos proibiram de sair da aldeia naquela noite. Haveria um julgamento no dia seguinte. Para decidir o que aconteceria a Juliano e a equipe que ele representava.

6 de julho, partida

Hoje acordamos às 5h e começamos a embalar as últimas coisas para ir embora.

Tomamos o café da manhã, as crianças me disseram que o jogo de que brincamos ontem, muito semelhante a nosssa “queimada” se chama Yetulaga. Mas pesquisei esse nome e parece se referir a um outro jogo dos Waura. Talvez seja um temo geral para jogos, ou talvez as crianças apenas estejam certas.

Nos despedimos da família. Abracei todos. A menininha não queria se desgrudar da irmã no momento final. Agora estamos no carro indo pegar o barco para levar Naiá para sua faculdade itinerante.

O assunto da depressão entre os povos indígenas me tocou profundamente, saímos com a sensação clara de como o nosso mundo destrói o mundo deles e além de os deixar sem espaço para levar suas vidas, também os coloniza mentalmente, através de uma violência mais sutil, os celulares, as telas que separam os povos indígenas, cada um com seu conteúdo de preferência.

Quando saíamos da aldeia, senti uma tristeza profunda. Espero que Naya e seus irmãos fiquem bem.

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